“O que mais traduz o amor verdadeiro é a passagem do que chamamos «eu» para segundo plano. […]
O amor é preocupação. Ter o coração já previamente ocupado. Ter medo que alguma coisa de mal aconteça à pessoa amada. Sofrer mais por não poder aliviar o sofrimento da pessoa amada do que ela própria sofre.
O amor é banal. É por isso que é tão bonito. O que se quer da pessoa amada: antes que ela nos ame também, é que ela seja feliz, que seja saudável, que tudo lhe corra bem. […]
A paixão pode parecer mais interessante. Mas irrita-me que se compare com o amor. Como se pode comparar dois sentimentos que não têm uma única semelhança? […]
“Se essa pessoa só conseguisse ser feliz amando outra, seria capaz de desejar que isso acontecesse, custasse o que me custasse?”.
Só quem ama responderá que sim. Imediatamente. Porque o amor é claro, é inevitável e, para além do mais, é um dom maior, maior que o amor-próprio, uma dádiva que ultrapassa as privações e o sofrimento. […]
Um amor pode ser tresloucado e uma paixão tranquila. É uma questão de natureza. Enquanto a paixão, tal como todas as atracções pelo exterior, começa por nós, o amor, que é o único sentimento interior, começa pela outra pessoa, nela reside e nela vive até morrer. […]
Mas se a vida serve para alguma coisa, que não seja apenas viver, é para amar. O amor é um dom porque, fazendo-nos sentir pequeninos e dependentes, afasta-nos de nós próprios e do mundo e aproxima-nos da nossa alma […]”
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