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quinta-feira, 9 de setembro de 2010


Há no jardim uma árvore, uma única árvore, imperdível.

As folhas cor-de-rosa escuro, a copa perfeita, equilibrada, uma arrogância face ao verde comum a todas as outras, uma sombra que se estende até ao banco de jardim e a hipótese, a pequena, a pequena hipótese, de existir, aqui, uma magia que não é para todos. Fico nesta contemplação enquanto as horas vão mudando.

Da janela do quarto consigo ver o vento nas folhas e, ao fundo, uma nesga de rio; consigo ouvir os pássaros. Evito olhar para o mar porque te vejo sempre nos reflexos da água, no beijo da luz do sol, um espelho hesitante de ondulações que vou adivinhando. O amor tem esse grau de incompreensão que nos aproxima do mar - do mistério que é o fundo do mar.

À noite, se as nuvens me deixam, contemplo a lua, a luz branca da lua.

Cada vez que vejo o mar, considero-o inantingível. A lua é toda uma outra reflexão.

(...)

sábado, 29 de agosto de 2009

Deixa-me explicar as fotografias


Não são imagens avulsas, são momentos de vivência interior de um mundo que ninguém consegue expressar. São como pequenas pinceladas de Deus no nosso dia-a-dia. (...) Não pretendo com as minhas imagens criar nenhum registro de falsidade, mas quando me envolvo no processo de revelação, tento concentrar-me no sentimento daquilo que vi. Há cenas da vida que parecem condensar-se, outras que se agigantam, outras que nos diformam a realidade e nos oferecem ilusões. Há sobreposições de palavras, de sons, de cores. Há o indizível.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

coisas lidas


(...) Não é porque não te queira encontrar, é porque não sei o que vou encontrar quando te encontrar, Percebes?

Podes ser outra coisa.

Não outra pessoa, porque quem tu és eu nunca soube, mas outra coisa, em vez da possibilidade do Amor Verdadeiro.

Coisas lidas e vividas

Agora sei que és um camaleão. Que te esbates na paisagem para que ninguém te veja e que a tua dor está apenas no contorno da dor dos outros. Não tens pudor em mostrar a crueza de uma lágrima, a enormidade de se estar sentado nu contra uma parede ou apenas um pormenos de uma flor, uma coisa que não teria importância e que tu fotografas como se fosse a essência da vida.
Como te perdeste algures, vives dos outros. Calculo que não te vejas ao espelho porque se te visses terias medo e fugirias ainda mais.
(...) Em silêncio fugiste porta fora.
(...) Aqui também se cultiva o silêncio. Como tu fazes.

Coisas lidas e vividas


As Fotografias aconteceram-me como uma forma de encontrar o meu coração.

(...) Tentava não pensar em nada e, sobretudo, não pensar em ti.

(...) Eu disse tudo que sim e fui vendo e guardando, guardando rostos e rugas, luzes e pedaços de corpos, frames de uma vida inteira, imagens cheias de silêncio. Quanto mais as minhas fotografias falavam por mim, mas a tristeza me ditava a reclusão, o medo dos outros.

(...) houve um homem logo depois de ti (...) tinha uns beijos prolongados que me incomodavam, sem razão.

(...) fazia-me surpresas, queria roubar-me a Alma. Se eu A tivesse.

Dor

A dor não tem um princípio, quer dizer que se instala suave, como um animal a procurar a posição para dormir, depois apanha-nos devagar, lenta, em surdina.
A dor tem consequências estranhas e improváveis, quase degradantes.
Há uma vergonha associada.
E não há qualquer espécie de compaixão ou vontade de celebrar este papel de vítima de uma dor, a minha dor, a que ficou no meu corpo, a única em que penso por ser paralizante de tudo o resto.
Como já se disse, a dor não tem princípio.

Coisas lidas e vividas


Vou evitando as palavras, vou diminuindo as frases, cada vez mais, num processo de encolher, de minimizar tudo o que digo, para não fazer barulho, para não darem por mim.

Ganhei uma certa velhice. Ninguém sabe, mas eu já estou velha.

Vou-me resguardando dos outros, cumprindo as minhas tarefas e mantendo o silêncio para garantir (...)
limito-me a ouvir (...) Pq eu preciso me encher de outras histórias.

(...) Eu consigo saber como é tudo porque consigo imaginar; por isso, se quiser, sei como é estar morta".


quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Anda, Morde-me o coração


Hoje, quero que saibas que não te disse nada e quando te pedi para me morderes o coração era só para me certificar que ele existia no meu peito. Tu preferis-te beijar-me, nunca me mordeste e, assim, fiquei sem saber.

Morder-te o Coração, Patrícia Reis