sábado, 25 de setembro de 2010


"Cultivavas o vício da paixão com um método implacável. Corrias em contra-relógio. Procuravas a imobilidade de um tempo-pedra que já era o teu.

... Nos breves dias em que vivias desapaixonada, tornava-te impossível. Nada te entusiasmava.
Há palavras assim, que se dizem como calmantes. Palavras usadas em série para nos impedir de pensar.

O que existia entre nós, é uma ciência do desaparecimento. Comecei a desaparecer no dia em que os meus olhos se afundaram nos teus. Agora que os teus olhos se fecharam sei que não voltarás a devolver-me os meus.
Cair em ti, cada vez mais longe da mísera ficção de mim.
Passei a vida inteira a querer interpretar-te – oh! Delicioso desperdício! – e nem sequer era por amor.
Eu era sempre o que parecia, tu ias sendo tudo o que parecias. Creio que por isso fomos ta íntimos – e por isso nos afastamos tanto.
Toda? Falta-me alguém que não és tu.
Há tantas coisas que nunca te disse – e dizias tu que eu falava demais. ... Em vida, sussurrava: não te perdoo o que não soubeste saber de mim. Este noante revela-me a verdade invingada: não me perdoo o que não soube verter-te de mim.
Eu pensava que queria mudar o mundo, eu pensava que tu apenas querias mudar de cenário. Eu pensava que pensava – por isso descobria tão pouco do impensável de nós.
... e aprendendo demasiado tarde o que não fui capaz de ver.
Julgava possuir todas as chaves do sofrimento. Chamavas-me presunçosa, talvez tivesses razão. Não há entendimento para o sofrimento do outro. "

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